Thaissan Passos: Da infância ao Daminhas da Bola

Créditos: Rener Pinheiro / CBF

*Texto feito com auxilio de Cássio Almeida 

O que não falta na vida de Thaissan Passos, de 31 anos, é empenho, empoderamento, amor, ensinamentos e momentos marcantes. Sentada na arquibancada da quadra do Instituto Loide Martha, onde mantém há dois anos o projeto social Daminhas da Bola, ela conta sua trajetória de vida.

Uma mulher que teve escolhas diferentes das amigas. Oriunda de comunidade, filha de manicure e de pai dependente químico, ela vê o futebol como a maior ferramenta de transformação social que existe. Com um bom rendimento como atleta, conseguiu ser a primeira da família a se formar em uma faculdade.

Thaissan passou a maior parte da infância no Bairro Beira-Mar, em Duque de Caxias. Perdida em suas memórias, ela conta como os primos – o irmão era péssimo com esportes – a incluíam em tudo. Para ela, eles colaboraram muito para a presença do esporte em sua vida.

Como não gostava das brincadeiras de meninas, sempre preferiu brincar na rua a ficar dentro de casa brincando de boneca. Brincava de pique, de taco… O futebol era uma consequência de todas as outras brincadeiras.

 

A TRAJETÓRIA

A família nunca viu problema no espirito livre de Thaissan – mas também não viam o amor pelo futebol como uma provável profissão. Assim que o futebol deixou de ser brincadeira, Thaissan começou a perceber o grande estigma social contra a presença das mulheres no futebol.

Ao começar a participar de competições escolares, viu-se obrigada a defender o time dos meninos, por não haver uma categoria voltada para as mulheres. Para que fosse aceita nas competições, seus treinadores precisavam discutir com os times adversários para que ela participasse das partidas.

Aos doze anos, sua avó tentou inscrevê-la, junto com os primos, na escolinha de futebol da Vila Olímpica de Caxias. Mas, para sua surpresa, meninas não podiam participar. Thaissan foi barrada e obteve a sua primeira frustração no esporte.

Conforme foi crescendo, as frustrações continuaram acontecendo. Chamada muitas vezes de “moleque macho”, ouvia das pessoas que seu futuro seria ser homossexual ou engravidar cedo, já que vivia sempre no meio dos homens. As ofensas, em sua maioria, vinham dos adultos e não das crianças que jogavam com ela.

 

O ambiente das crianças era um ambiente favorável a mim, o problema eram os adultos, não as crianças. A criança não tem maldade, a criança começa a maldar e xingar o outro quando ela vê o adulto fazendo. – constata a neta de D. Ilda.

 

Em 2001, ao completar quinze anos, as coisas começaram a mudar. Ela ganhou um belo presente do professor Thiaguinho: um teste no CEPE Caxias – atual Duque de Caxias – no qual foi aprovada de primeira.

Thaissan defendeu clubes tradicionais como América, Botafogo e Fluminense. Entretanto, foi no Méier, mas precisamente no gol do Sport Club Mackenzie, que ela passou os melhores momentos da sua carreira.

 

 Ali no Mackenzie eu me formei como pessoa, como mulher. Ali eu entendi o que era o esporte. – explica a caxiense.

As passagens de Thaissan por diversos clubes, a fez colecionar ídolos. É com brilho nos olhos que ela fala sobre a importância de Edson Galdino – Técnico do futebol feminino do Duque de Caxias, no qual é auxiliar técnica.

 

 O Edson Galdino é lenda, começou lá em 1998-99, com jogos estudantis, como aconteceu comigo. O cara jogou uma libertadores, conseguiu montar o CEPE-Caxias com apoio da Petrobras, em que a primeira vez que as meninas do Brasil assinavam a carteira. (…) O dia que ele (Galdino) não existir no futebol feminino do Rio de Janeiro, vai ficar uma lacuna, um buraco aberto. (…) Minha palavra pro Edson é gratidão, não só pela Thaissan, mas pelo futebol feminino. O futebol feminino deve isso a ele.

 

 

DAMINHAS DA BOLA

 

Daminhas da bola

Créditos: Rafael Ribeiro/CBF

 

As dificuldades passadas por Thaissan foram primordiais para ela entender a importância do projeto. O Daminhas da Bola surgiu da vontade da ex-jogadora de utilizar o futebol para dar oportunidades às meninas da Baixada e de mudar a visão da sociedade quanto ao futebol feminino.

Para ela, a saída da atual sociedade do Rio de Janeiro é o esporte e a educação. Por isso, ela descreve o seu projeto como uma plataforma de oportunidade.  As 28 meninas atendidas diretamente pelo Daminhas são bolsistas no Instituto Loide Martha, em Duque de Caxias – as bolsas variam de 30% a 100%.

Com intuito de formar jogadoras, o projeto atende meninas de 7 a 17 anos, a maioria oriunda de comunidade.

 Minha ideia é formar, porque a base é o principio de tudo. A gente esquece que pra formar a Marta com 30, ela tem que ter 15, tem que ter 11. – Explica Thaissan, criadora do projeto.

 

Thaissan é uma mulher que não se contenta com pouco. Sempre em busca de novas capacitações para fazer a sua vida profissional e o seu projeto crescerem, ela cursa pós-graduação, sendo aluna de Carlos Alberto Parreira, ex-técnico da seleção brasileira.

Nos planos para o futuro, ela almeja levar o Daminhas para outras escolas, formando outros polos. Sabendo da importância dos estudos, seu intuito é sempre formar alunas-atletas. O projeto cresceu tanto nos últimos meses, com apresentação na CBF e matérias vinculadas a jornais, que já há conversas com universidades do Canadá e dos Estados Unidos.

Mais uma das características do Daminhas da Bola é a preocupação em formar atletas disciplinadas dentro e fora da quadra. Por isso, além de aprender as regras do esporte, as meninas também aprendem regras para um bom convívio.

 Eu comecei a ver a diferença do meu time jogando contra os outros. No meu, fez falta e machucou? Vai e pede desculpas, não precisa disso. É “bom dia”, “boa tarde”, “boa noite”. Eu as faço respeitarem desde a pessoa que serve o cafezinho ao dono da escola. – Conta a idealizadora e técnica do time.

 

A linha de ensinamento adotada dentro e fora das quadras está surtindo efeito: O Daminhas da Bola é o melhor clube escolar do sub-17 do Rio de Janeiro e no dia 12 de outubro de 2017 consagrou-se campeão escolar, classificando-se para representar o Rio de Janeiro nos Jogos Escolares da Juventude, que aconteceu em Brasília. Além disso, Taciane, uma das alunas, foi convocada para a seleção brasileira sub-17.

Assim como Thaissan teve referências positivas no esporte, ela procura ser referência para as meninas que participam do projeto. Ela acredita que a postura das participantes do projeto vem do reflexo do comando: Ela é o principal exemplo, a pessoa que serve de espelho para as atletas. Uma mulher que se preocupa com o bem estar da equipe, por isso ela não mede esforços para fazer sempre o melhor.

A Drica, sua estagiária e ex-daminha, é o seu braço direito e define sua ex-professora como uma pessoa maravilhosa. Quando acabou o colégio, ela queria cursar radiologia. Thaissan fez de tudo para que ela não desistisse do seu futuro como atleta e educadora e hoje bate palmas para a mulher que está cursando educação física e que conquistou, com apenas 19 anos, a confiança da direção do Loide Martha.

Quando o assunto é preconceito dentro da instituição, Thaissan diz que dentro do âmbito escolar isso não existe. A imagem que ela vende vai totalmente ao contrário do que ela passou como jogadora. Antes de qualquer coisa, a ex-goleira preza pela valorização da mulher na sociedade e procura ensinar esse assunto a todos.

Por ela atuar no Instituto Loide Martha há seis anos e pelo fato do projeto existir há dois, os rapazes da escola aprenderam a respeitar o espaço das meninas. Eles sabem que qualquer atitude contrária ao respeito será cobrada.

O relacionamento com os responsáveis das atletas também é bom. Com reuniões mensais para mantê-los a par dos assuntos, ela procura sempre mostrar que a motivação precisa começar dentro de casa.

 

FUTEBOL FEMININO NO BRASIL

Com um sentimento de esperança, Thaissan vê um futuro promissor para a modalidade – mas garante manter o pé no chão, pois já viu oportunidades de melhorias em outros momentos, como em 2007 com o jogos Panamericanos e em 2016 com as Olimpíadas.

A técnica do Daminhas afirma que o cenário de hoje é melhor que o da sua época, mas  afirma que ainda precisa evoluir muito. A evolução, ela diz, só vai começar realmente quando a CBF deixar o ego de lado e colocar pessoas que realmente entendam das dificuldades vividas pelas atletas e profissionais da área.

Lembrando-se de tudo o que passou e viu suas amigas passarem, ela afirma que as atletas vivem de sonhos, vivem acreditando que o futuro vai ser melhor. Thaissan conta que o maior orgulho de uma jogadora é conseguir fazer pelo esporte algo melhor que a anterior. Por essa razão, o desejo da Thaissan é conseguir deixar um legado melhor do que ela colheu.

  Hoje o futebol feminino não tem nada, mas tem muito em relação ao passado. – diz Thaissan Passos, comparando a estrutura encontrada no esporte hoje com a encontrada na sua época.

 

PRÊMIO MULHER DESTAQUE DA BAIXADA

Emocionada, Thaissan diz que esse prêmio não foi para ela e sim para a sua mãe, para a sua madrinha e para as pessoas que a criticavam no inicio da carreira. Ela dedica o prêmio para cada mãe que vai para o trabalho andando só para deixar o Rio Card para filha pegar ônibus para ir ao treino.

Mas é quando fala de Camila que os olhos enchem de lágrimas. A aluna perdeu a vida por conta do tráfico de drogas e foi a primeira a dedicar um gol a treinadora.

Sabendo das dificuldades que as meninas vivem, sabendo dos problemas sociais que existem dentro das comunidades do Rio de Janeiro, Thaissan sonha em dar uma vida melhor para suas alunas e encontra na premiação força para lutar e não perder outras Camilas.

 Pode não ter Marta, mas também não vai ter mais Camila. – finaliza Thaissan.

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